21 de Novembro de 2009

Jorge

Até um dia destes, querido amigo.

2 de Outubro de 2009

Adeus


Se o mar alto permitir o regresso, talvez um dia o cão e as suas pulgas tornem à praia.

Até lá, obrigada pela experiência. Beijinhos e abraços :)

Stairs of the Sea

1 de Outubro de 2009

Sem outro intuito (In memoria)


Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava

Lady, Music and Fruit

29 de Setembro de 2009

Fraldiqueiros


Coitarados!
Meninos, tiveram pouca mamã.
Carências afectivas afunilaram-nos psiquicamente
desde a impoética infância até este corrimento sentimental
em que, grandinhos, se compensam, comprazem.
Continuam a gotejar.

Coitarados!
Gulosos de pontas de dedos,
perdem-se em beijoqueirices, diminutivas ternurinhas.
Têm sempre rebuçadinhos d'alma para as mulheres.
Falam freud ao colo das amigas.

Fraldiqueiros. . .
Vai levar-lhes isso a nojo, machão?
MuIheres gostam. Riem, prazidas.
«Venha cá à mamã!»

O golpe do coitadinho (não confundir com o golpe
do irmãozinho, esse na base do esquema da alma gémea)
é o que estás a ver: saltar para o regaço e pedir nhém nhém
em nome do Sigismundo, daquele que dizia, salvo erro:
A alma? Geme-a...

Fraldiqueiros
a mandarem beijinhos por teleférico! de saliva
Engatinhantes, tiram do estojo complexos em forma de saxofone
e tocantam-lhes a pingona freudista canção do bandido

Fraldiqueiros. . .
Mulheres gostam. Até onde?

Alexandre O' Neill

27 de Setembro de 2009

Stilleben mit der goldenen taschenuhr

Pavel Kaplun

26 de Setembro de 2009

Chico Buarque - O meu amor



(...)

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O passado e o presente


Gostava de voltar a ser menino.

Queria rebolar os bilas e os abafadores, circular o comboio, chocar os dinkytoys, mergulhar no Sandokan.

Mas só de vez em quando. Gosto de viver o meu hoje, também cheio de brinquedos e misérias.

Afinal, os jogos só mudaram de tempo e de modo.

As coisas sérias é que não. São novas, melhores e queridas. Mesmo quando sofridas.

Decididamente: prefiro o hoje.

O Chapéu de Fernando Pessoa

António Costa Pinheiro

24 de Setembro de 2009

Significa sombras


Qué esperanza considerar, qué presagio puro,
qué definitivo beso enterrar en el corazón,
someter en los orígenes del desamparo y la inteligencia,
suave y seguro sobre las aguas eternamente turbadas?

Qué vitales, rápidas alas de un nuevo ángel de sueños
instalar en mis hombros dormidos para seguridad perpetua,
de tal manera que el camino entre las estrellas de la muerte
sea un violento vuelo comenzado desde hace muchos días y meses y siglos?

Tal vez la debilidad natural de los seres recelosos y ansiosos
busca de súbito permanencia en el tiempo y límites en la tierra,
tal vez las fatigas y las edades acumuladas implacablemente
se extienden como la ola lunar de un océano recién creado
sobre litorales y tierras angustiosamente desiertas.

Ay, que lo que soy siga existiendo y cesando de existir,
y que mi obediencia se ordene con tales condiciones de hierro
que el temblor de las muertes y de los nacimientos no conmueva
el profundo sitio que quiero reservar para mí eternamente.

Sea, pues, lo que soy, en alguna parte y en todo tiempo,
establecido y asegurado y ardiente testigo,
cuidadosamente destruyéndose y preservándos incesantemente,
evidentemente empeñado en su deber original.

Pablo Neruda

Insula Dulcamara

Paul Klee

23 de Setembro de 2009

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos


Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.

Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.

Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.

E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.

Herberto Helder

Cais para onde?

Yerka

22 de Setembro de 2009

Má educação


"É um filme muito íntimo, mas não é autobiográfico. Não falo de minha vida no colégio (...). Obviamente as minhas memórias foram importantes na hora de escrever o roteiro, já que vivi nos locais e momentos onde a história se passa.

"Má Educação" não é um ajuste de contas com os padres que me educaram mal, nem com a Igreja em geral. Caso tivesse necessidade de me vingar, não teria esperado quarenta anos para o fazer. A Igreja não me interessa, nem como adversária. O filme não é uma comédia, ainda que haja humor nem um musical infantil, ainda que crianças cantem. É um film noir, ou, pelo menos, gostaria de considerá-lo assim.

O género noir admite bem a mistura com outros géneros, sempre que a narração respire esse ar fatal, sem o qual o negro seria cinza. No noir pode não haver polícia nem armas, nem sequer violência física, mas tem de haver mentiras e fatalidade, qualidades que normalmente uma mulher encarna: a femme fatale. Ela é consciente de seu poder de sedução e é fria, razão pela qual não se altera facilmente. É alguém que perdeu os escrúpulos e não se interessa em recuperá-los. Para ela, o sexo não é fonte de prazer e sim de dor para os demais. Em "A Má Educação", a femme fatale é um enfant terrible, a personagem interpretada por Gael Garcia Bernal".

Pedro Almodóvar

Escuto


Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

Sophia de Mello Breyner

O violoncelista

Amadeo Modigliani

14 de Setembro de 2009

Liebestod



Waltraud Meier (Isolde)

Poema


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).

Álvaro de Campos

Tranquilidade

Botero

13 de Setembro de 2009

Desafinado (para ti)



Tom Jobim e João Gilberto

Por todas as vezes que eu desafino...

Das águas que o rino escolhe...

Das águas que o rino escolhe
da pedra a que o vento encosta
do unto a que o tempo obriga

dos sais que a estação abriga
do pasto a que o gado aspira
da lua em que o vento vira

Não há pastor que não saiba.

Não há pastor que não saia de alguma curva da infância.

Rui Duarte Carvalho

Arbol de la esperanza

Frida Kahlo

20 de Julho de 2009

Quero dos deuses só que me não lembrem


Serei livre - sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo nos oprimem.
A quem deuses concedem
Nada, tem liberdade

Ricardo Reis

Liberdade

13 de Julho de 2009

Terror de te amar


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Sophia de Mello Breyner

The embrace

Picasso

4 de Julho de 2009

Officina Romanorum



• Melhorar a compreensão da Língua Portuguesa
• Desenvolver o raciocínio lógico
• Explorar noções como “Ser Europeu” e “Cultura Europeia”
• Aprender, ler e pesquisar - brincar aprendendo, aprender brincando
• Estimular as crianças a uma educação superior
• Promover a apetência pelo enriquecimento curricular

Programa

Consultar a página online da Officina Romanorum

Equipa

. André Simões, Arnaldo Espírito Santo, Cristina Pimentel, Rodrigo Furtado e Sofia Frade, professores do Departamento de Estudos Clássicos.

. Ana Cristina Matafome, Ana Filipa Silva, Ana Margarida Almeida, Fátima Belo Mégre, Ivan Figueiras e Marina Castanho, investigadores do Centro de Estudos Clássicos.

Local

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

27 de Junho de 2009

Sir Madame Real

15 de Junho de 2009

Tu além-palavra, ao pé de mim


Não falo de palavras, nem de goivos,
mas de horas atadas ao pescoço.
Poema verdadeiro é sermos noivos:
saber tirar a pele e o caroço

ao grito entre a morte e outra morte
que nos mantenha lassos e despertos
até que venha o talhe que nos corte
e nos retire os poços e desertos.

Por isso, meu amor, o que te dou,
beijo beijado em corpo claro e vivo,
é mais que o verso que te dizem, ou
aliterante, agudo ou conjuntivo.

Colado a tudo, mesmo a contragosto,
o rio inventa o verso, e não assim
como se ao espelho visse o próprio rosto,
mas tu além-palavra, ao pé de mim.

Pedro Tamen

Eruption

Yerka

10 de Junho de 2009

Belo. Em Haifa









Haifa Auditorium

Israel Philharmonic Orchestra

(Conductor) Rafael Frühbeck de Burgos

9 de Junho de 2009

Quase Verão

8 de Junho de 2009

Interior with Box of Yellow Apples

3 de Junho de 2009

Convite

Do João Gonçalves, para o fim da tarde de hoje:

Para a dedicação de um homem


Terrível é o homem em quem o senhor
desmaiou o olhar furtivo das searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima
A morte é a grande palavra para esse homem
não há outra que o diga a ele próprio
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia

Ruy Belo

The clock

Yerka

1 de Junho de 2009

Poema à amizade


Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.

Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.

Albert Einstein

Le bonheur de vivre

Matisse

31 de Maio de 2009

Resposta


"Eu vinha para a vida, e deram-me dias"
vivos com os seus lugares e espaço.

Ontem nasci sem fim, e alimentei-me
nesta mesa que em duas se reparte.
Uma aba no mar, vagante à toa,
trouxe os sabores de ondas, de orlas.
Outra aba na terra mostrou-me as pedras
polidas, úberes, gastas. Pedras
densas que me encheram o ventre
e me criaram similar à Terra.
No mar tive cristais quebrados, jóias;
na terra, tão nítida poeira branca
que fundi as formas das flores visíveis.

E hoje é este olhar profundo,
deriva das imagens pelo mundo.

Fiama Hasse Pais Brandão

The Juggler

Marc Chagall

9 de Maio de 2009

Naglfar

25 de Abril de 2009

35 anos


"Só deve ser comemoração se for compromisso"


Marques Júnior, hoje, na Assembleia da República

24 de Abril de 2009

Um dia branco


Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.

Sophia de Mello Breyner

20 de Abril de 2009

Last Supper

3 de Abril de 2009

Uma nova (des)ordem?


"Partimos do princípio de que a prosperidade é indivisível, que o crescimento para ser duradouro tem de ser partilhado (...)", Pensamos que o único fundamento seguro de uma globalização sustentável e o aumento da prosperidade para todos é uma economia aberta fundada no princípio de mercado, numa regulação eficaz e instituições mundiais sólidas"." - J.N.

Poema de um funcionário cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

António Ramos Rosa

Balance

Francis Picabia

29 de Março de 2009

Em folhas de acetato me proteges


Em folhas de acetato me proteges
floresço em avenida litoral
breve serei semente um céu e a terra
plantado azul e sopro de marés

as palavras fechadas com o jeito
que a boca tem ao ver-se
retratada
quase um sabor razão acidulada

me persegues de nomes, me retratas
igual ao branco hotel onde regressa
a não lembrada sombra do verão

e pousam de ouro em água o só
engano breve
das rosas e da neve despertadas.

António Franco Alexandre

Night Cafe

van Gogh